sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ah, o teatro


Chego a suspirar duas vezes, no mínimo. O exato número de vezes que eu tentei fazer aulas. Sim, eu frequentei exatas duas aulas de teatro em toda a minha vida com um intervalo de sete anos entre as duas. É muita coisa, claro, mas minha paixão reprimida pelo teatro continua viva dentro de mim. O que apenas me afasta dos palcos e das companhias de teatro é minha pouquíssima vontade de aparecer sobre o palco. Eu poderia dizer que sentia vergonha, mas eu não sinto exatamente vergonha de estar no palco retendo a atenção do espectador.


Não sinto vergonha porque durante sete anos da minha vida, eu dancei numa companhia de dança que ficava perto da minha casa. Nesse meio tempo foram muitas apresentações dos mais variados tipos de dança e eu não tive vergonha de dançar na frente das pessoas em nenhuma das vezes. Tudo bem, se deve considerar que eu não estava sozinha no palco e que a atenção não ficava apenas em mim, mas nesse meio tempo, eu fiz, no mínimo, quatro apresentações solo. Sim, sozinha no palco. Em um desses solos, eu abri o espetáculo encarnando uma espanhola com castanholas e uma rosa na boca. Eu pensei em colocar fotos, mas acho que vou pensar melhor.

Então, eu não tenho vergonha do palco. O que me separa do teatro parece ser essa pouca vontade de me soltar em ensaios. Minha primeira aula de teatro, em 2003, foi uma verdadeira negação. Minha segunda aula, em 2009, foi pior ainda. Não sei se a culpa era das técnicas que o professor da aula de 2009 ensinou. Talvez fosse apenas eu e minha relutância quanto a fingir que sou um ovo no meio de um salão com dez olhos curiosos vendo se eu vou interpretar certinho o tal ovo. Eu não consigo.

Não é vergonha, é falta de vontade de parecer idiota. Tudo bem, todo mundo é um tanto idiota numa aula de teatro. O ator tem que ser idiota. Não me entenda mal, não digo idiota de ser um completo imbecil, mas interpretar é complicado. Sei disso, eu sou uma atriz vocal. Atriz vocal, o que é isso? A pergunta deve ter passado pela cabeça de quem acabou de ler isso. Eu explico: Uma atriz que apenas usa a voz. Sabe dublagem? Pois então. Meu maior papel foi Alice Cullen, a vampira vidente de Crepúsculo, num audiobook. Audiobook promovido por mim, naturalmente, mas ganhei por pura votação popular.

É mil vezes melhor interpretar quando não tem ninguém esperando ver a expressão na tua cara. É muito mais fácil fechar a porta do quarto e interpretar uma cena de ação ou de dor e simplesmente chorar por querer. Posso dizer que sou uma atriz nata. Mas uma atriz vocal. O que não descarta minha vontade de fazer mais aulas de teatro. Estava pensando seriamente em buscar algum curso, no qual pudesse fazer uma terceira aula de teatro, que pode vir a ser um desastre maior do que anterior daqui a alguns anos.

Acho que minha recente paixão latejante pelo teatro e vontade de uma terceira aula, veio com meu trabalho. Trabalhar em uma revista especializada em teatro tem lá suas vantagens. Trabalhar em uma revista especializada em teatro dentro da UFRGS é melhor ainda. Talvez a culpa também seja de Steve Paxton e seu Contato-Improvisação ou de Robert Rauschenberg e seu visionário 9evenings nos anos 60. Eu só tenho que mandar embora a pouca vontade de parecer idiota, porque medo de palco, eu não tenho. Ou nunca teria dançado ou montado uma banda há alguns anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se sinta à vontade para comentar o que quiser sobre o artigo lido, apenas mantenha o respeito às pessoas.