quinta-feira, 21 de abril de 2011

E não é que o preconceito tinha fundamento?

Ontem eu presenciei uma cena que eu não sabia que existia fora de filmes de humor negro ou de seriados americanos que retratam a “violência” da população e com a população. Presenciei uma cena que me deixou com uma vontade imensa de fugir para uma cidade mais civilizada e quem sabe um país mais civilizado. Ontem, durante tal cena, eu entendi a origem do preconceito que as pessoas têm com a minha cidade. E não discordei delas.

Era noite e eu voltava para casa de transporte coletivo com a minha mãe. Vínhamos as duas com fones de ouvido, porém enquanto ela escutava a boa música nacional, eu me deliciava com Johnny Cash, como venho fazendo há alguns dias. Então, exatamente na metade do caminho, percebi que o coletivo estacionou próximo à calçada e que o motor foi desligado. Eu e minha mãe tiramos os fones tentando entender o que tinha acontecido e eis que a revolução começou.

Não, o coletivo não foi seqüestrado, assaltado e muito menos estava quebrado. O rebuliço todo se dava por conta de um rapaz que não devia ter mais do que trinta anos e que recém havia sofrido um quase atropelamento pelo motorista do coletivo. Como um típico coletivo das sete e meia da noite, este estava lotado. E quando eu digo lotado, quero dizer muito cheio, com pessoas quase sentando no colo uma das outras.

Nosso motorista estava evitando deixar que outros passageiros subissem, pois não havia mais espaço dentro do ônibus. Então o rapaz fez sinal para que o ônibus esperasse; sinal que o motorista ignorou e, numa tentativa de conseguir subir no coletivo, o rapaz tentou atravessar a rua correndo e alcançá-lo enquanto o coletivo passava pelo corredor de ônibus. Resultado: rapaz quase atropelado por um ônibus que não desacelerou quando viu que ele vinha atravessando.

Mais resultado? O rapaz conseguiu subir no coletivo, porém reclamando que quase fora atropelado. Como não havia espaço, ele teve de se contentar em ficar ao lado da roleta, perto do cobrador; então, ligando para sua mãe pelo celular, o rapaz relatou o acontecido. O cobrador do coletivo ironizou a situação, dizendo ao motorista que o rapaz estava chamando a policia e criando um motim dentro do ônibus.

Resultados: Nosso motorista resolveu parar o ônibus, exigindo que o rapaz descesse e que esperasse por outro coletivo. Preciso dizer que quando soube do que havia acontecido eu senti meus ombros caírem e minha raiva pela sociedade? Mais resultados, apenas para completar o quadro: Inclusive a Brigada Militar foi chamada e o rapaz revistado pelos policiais, como se fosse algum tipo de bandido.

Aquela cena me serviu para ver até onde a população é capaz de chegar. Uma pessoa que reclama por ter quase sido morta, é praticamente linchada dentro de um coletivo e ainda é revistada pela polícia! Isso é uma vergonha, e explica perfeitamente a fama que Alvorada tem.

Há algum tempo atrás, um jornal cretino do estado, começara a contar numericamente os crimes e assassinatos que aconteciam na cidade, como se isso fosse apenas um caso isolado. Ignoravam os crimes em Canoas e inclusive os que aconteciam em Porto Alegre. Essa é a fama que Alvorada tem: fama de cidade perigosa, de cidade sem lei... E depois da cena que eu presenciei, eu percebi que isso é culpa das pessoas que vivem aqui.

Não é só culpa dos bandidos, porque eu vi que as pessoas podem transformar qualquer um em bandido quando querem; quando mais de um se colocam juntos e acusam alguém de alguma coisa. As pessoas, e agora eu amplio o meu campo de estudo de pessoa, tendem a isso. Abandidar aqueles que eles acham que estão errados.

Eu tenho pena deles. Tenho pena de todos que estavam dentro daquele ônibus, porque são pessoas pobres de espírito, que se alimentam de barracos e são facilmente influenciáveis por pessoa de cabeça fraca e de pensamentos distorcidos que acham que diversão é apedrejar outras pessoas e, consequentemente, se acharem superiores a elas por conta disso.

Eu era minoria dentro daquele coletivo, assim como o rapaz que não começara nenhum motim ao ligar para a mãe e reclamar sobre o acabara de acontecer, tentando pensar no que fazer para procurar seus direitos. Eu entendi de onde vinha o preconceito com a minha cidade; e aposto que aquelas pessoas que começaram o tal tumulto, são as mesmas que ouvem funk em seus celulares sem fones de ouvido. Tudo é uma questão de educação e por tudo que eu tenho visto acontecer, está cada vez mais difícil se chegar lá.

Um comentário:

  1. Esse problema não é só com tua cidade e sim de tantas outras que estão localizadas nesse país chamado Brasil. Esses dias ouvi dentro do bonsucesso de uma pobre (de espirito) que tinha que queimar essas novas lixeiras mesmo...que o dinheiro tinha que ser investido em educação e que tinha um monte de gente morrendo de fome e etc. bom ela não sabe ou desconhece que existem orçamentos para diferentes coisas e que destruir patrimonio publico apenas geraria mais gastos, principalmente para nossos bolsos, pq afinal nós pagamos por tudo isso não? Enfim...se fosse para fazer um protesto pedindo que colocassem mais onibus ninguem faz...agora quase linchar um cara pq tentou pegar o onibus lotado é beeemm facil não?

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