domingo, 5 de fevereiro de 2012

[conto] O Corpo

Eu nunca pude me imaginar naquela situação. Nunca antes, em momento algum, eu tinha tido contato com armas. Nem em jogos de computador. Sempre fui uma pessoa pacifica, mas para meu aparente desespero, ali na minha frente jazia um corpo. Mesmo estando apavorado como um bebê largado em uma estação de trem, eu ainda tive a coragem de limpar o sangue que teimava em sair do buraco da bala no peito do cara e de colocá-lo em uma posição não tão feia. Afinal, ele estava estendido de costas no chão, com os braços esticados e os olhos abertos, arregalados, me encarando. Não teve tempo de fechá-los. Coloquei-o naquela posição clássica. Parecia calmo. Braços sobre o peito, olhos fechados e pés juntos. Sugestivo. “Vamos embora!”, gritou a voz doce, mas selvagem, vinda de algum lugar. Eu já não me preocupava com os tantos problemas que eu teria dali para frente. Posso lhe assegurar que nunca soube das consequências. Acho que preferi não saber. Mas, ao certo, seriam piores para mim. Ele, pelo menos, já não tinha mais vida. Um pensamento frio? Para mim, não. As pessoas devem pagar pelos erros que cometem. Ironia? Pode-se até pensar, mas eu acredito em destino. Ele veio ao mundo para viver pouco mais de vinte anos e morrer pelas minhas mãos. Meu sangue frio me ajudou a executar outras duas tarefas: limpas a arma que, certamente, não era minha e ainda escrever para a polícia. Ele pagou, mas eu também deveria pagar. Cada um ao seu modo. Deixei a arma, já limpa, entre as mãos do morto, enquanto escrevia a carta. À medida que o papel chegava ao final, meus olhos lacrimejavam mais e mais. Minha letra já não era caprichada e sim garranchuda. Quando a assinei, vi que não valeria a pena deixar que uma carta explicasse tudo. Ainda mais naquele estado: uma letra garranchuda e um papel manchado por lágrimas que caíram no final, quando eu a reli. Decidi ir para a casa e me recuperar enquanto a polícia encontrava o corpo e chegava até mim, mas ela cometeu o grande erro de achar ser um belo suicídio. Como um corpo arrumado, sem sangue aparente e ainda com a arma entre as mãos, haveria se suicidado? Esse era um dos grandes problemas da polícia local: eles nunca se importavam realmente com o que investigavam, muitas pessoas se mostravam indignadas, mas nunca ninguém falava nada. “Você não pode se entregar!”, grunhiu aquela voz. Eu não dei muita bola. Entrei no banheiro para tomar um banho, enquanto minha mãe reclamava dos erros policiais que incomodavam tanta gente. “Como o próprio rapaz teria se matado?” perguntava ela, reclamando para ninguém, já que eu não a ouvia e na minha casa havia somente dois quartos, dois lugares à mesa e dois frascos de xampu no banheiro. O meu já estava acabando por sinal. “Mãe, me empresta seu xampu?”. Não esperei resposta porque ela seria positiva. Minha mãe gostava muito de mim. O único filho de um casamento que ela julgava ter sido maravilhoso. Até que meu pai nos deixou. Não nos deixou ao ir embora, mas foi obrigado, já que, acredito eu, aquela bala de revólver nunca o teria deixado ficar conosco. Eu tinha seis anos. Depois disso, nunca mais fui o mesmo. Nunca mesmo, pois nunca me imaginei com uma arma na mão e um corpo estendido e de olhos esbugalhados na minha memória. Muito menos que um dia eu me entregaria à polícia. Meu pai devia estar se revirando no túmulo.

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