quarta-feira, 2 de maio de 2012

[conto] Guarda Chuva 2.0

Uma noite fria e escura de julho. Uma ladeira molhada de chuva e uma sombrinha emprestada. Uma esperança morrendo no peito e os pés completamente molhados. São Pedro não estava sendo bonzinho com os cinco alunos que foram os últimos a sair da festa de São João da escola de ensino médio. A garota com a sombrinha emprestada tentava fazer graça, cantando fragmentos da letra de Singin’ in the Rain, enquanto tentava imitar Gene Kelly. Não era o suficiente para tirar de sua mente que ele não tinha aparecido.  Os olhos vasculhavam as ruas vazias atrás da figura etérea, mas não encontravam nada além de expectativas frustradas. Se despediu dos amigos e rumava para casa quando, mais uma vez, uma figura se materializou em sua frente e as expectativas atingiram o céu. A cada passo que dava, a tal expectativa diminuía. Não era a primeira vez que imaginava a figura dele nas sombras, mas os passos da figura etérea caminhavam em sua direção. Poderia ser um ladrão ou um louco, mas ela se abriu num sorriso tímido. Não foi surpresa quando ele parou. Os dois estavam próximos o suficiente para se tocarem. Fazia tempo que não se viam, mas ela reconheceria aqueles olhos claros por debaixo dos cabelos claros encharcados em qualquer situação. Reconheceria a magreza elegante à la Keith Richards até debaixo d’água. E debaixo d’água eles estavam. A chuva não dava trégua, mas nenhum dos dois andou para casa, nenhum dos dois quis ir embora. Ela, apreensiva com o humor instável típico dele. Ele, intrigado com a postura imutável que ela tinha sobre certas coisas. A conversa não funcionava, não havia futuro naquela relação. Eram o sol e a lua que apenas se encontravam quando em uma situação improvável. Nenhum dos dois se preocupava com visão de futuro, aliás, porque sabiam o paradoxo que eram. A última frase que ela ouviu dele foi a mais simples e a menos significativa. 'Nunca mais saio sem um guarda chuva', ele disse quando foi embora.

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