terça-feira, 12 de junho de 2012

Nossas Almas velhas e o Dia dos Namorados



 Benvindo ao post mais "do fundo do coração apaixonado" que eu já fiz


Eu saberia dizer exatamente como estaria a minha vida se a minha mãe não tivesse ido ao salão de beleza naquele dia. Eu continuaria me enganando e usando de uma personagem que não me cai bem, mas que engana bem, apenas porque eu não queria ter que me envolver ao mesmo tempo em que eu não queria ficar sozinha. Eu não tinha vontade, meus olhos não brilhavam e meu coração não disparava, embora a companhia não fosse ruim. Eis que a matrona chegou em casa com um sorriso de orelha a orelha dizendo que tinha encontrado a criatura perfeita para mim no filho de uma vizinha. Vizinha essa que morava na outra extremidade da rua e eu mal conhecia. A criatura em questão me era mais desconhecida ainda, apenas tendo sido vista na infância e duas vezes depois de crescida. Criatura que impressionou uma das minhas amigas numa das duas vezes em que foi vista, mas que não tinha passado de algo parecido com uma ótima arquitetura para os meus olhos: bela de ser observada e comentada.


A vida é irônica. A vida é tão irônica que depois de reclamar de vergonha pela propaganda que minha mãe tinha feito de mim à tal vizinha, mãe da criatura bela como arquitetura, preocupada que aquilo pudesse parecer desespero da minha parte, a bela criatura dá o primeiro passo. Benditas redes sociais e o intervalo que eu levei para entender que ele tinha dado o primeiro passo. A criatura tinha se interessado e eu tinha gostado. Minhas bochechas tinham ficado vermelhas e a vergonha tomou conta de mim. De repente, a personagem durona e segura de si tinha ido embora e restava apenas a menina tímida e sensível que sempre ficava escondida. E foi por causa da menina tímida e sensível que eu demorei dois dias para dar o segundo passo. “Se um der o primeiro passo, o outro tem que dar o segundo, certo?”, eu perguntava para mim mesma, em pânico. Eu fiquei em pânico, mas eu não tinha ideia do porque, talvez porque nós morássemos tão perto um do outro que qualquer palavra inesperada da parte dele pudesse ser o fim. Dramática. Mil vezes dramática, mas era assim que eu estava me sentindo. Com a personagem cada vez mais longe, recebi minha resposta e logo a troca de telefones tinha sido feita. Frio na barriga. Muito frio na barriga quando, finalmente, um encontro foi sugerido. Noite fria de maio e batata frita ruim. Uma criatura trinta centímetros mais alta do que eu me esperando na esquina e eu usando sapatilhas. Meu estômago pulando, minhas bochechas coradas, minhas mãos trêmulas... Porque?!

A bela criatura se mostrou muito mais do que bela, a criatura era um espécime raro e um espécime perfeito para mim. Ele era a peça que faltava na minha coleção, o cobertor que eu precisava na noite mais fria do ano. E eu me vi gostando dele, adorando o fato de ele ser uma criatura rara e um espécime perfeito que não apenas me via, mas que me enxergava, que pensava como eu nos mais diversos campos do pensamento, que gostava de mim com meus vícios e vicissitudes e que não pensava naquela relação como algo que não acrescentaria nada. Eu sou uma pessoa que acredita duvidando, mas coincidências sempre me pareceram coisas simples e inocentes demais. Não me parece possível que as coisas aconteçam do jeito que acontecem apenas porque acontecem, tem que existir um porque e o destino me parece uma boa ideia nessas horas. O destino é algo no qual eu sempre acreditei e duas mães se encontrarem num salão de beleza e acabarem conversando sobre seus filhos solteiros que gostam de praticamente as mesmas coisas não pode ser apenas coincidência. Contando assim, parece apenas coincidência, mas é algo que não se consegue explicar. É surreal, nossa palavra favorita para definir essa relação.

E aqui eu já começo a falar de “nós”. Como o plural surgiu na história é algo que ninguém nunca conseguirá explicar, é algo que não parece ter nenhuma explicação terrena, mas apenas espiritual. Eu gosto de dizer que somos almas velhas que já se encontraram diversas vezes durante a existência do mundo, só isso poderia explicar essa ligação. O efeito que ele vem causando em mim é louvável, digno dos mais longos escritos que eu puder criar. Ele é meu primeiro pensamento do dia, depois de um sonho estranho que eu tenho a impressão de que preciso contar. É nele que eu penso quando eu vejo algo bonito e quero dividir com alguém. É com ele que eu quero estar quando aquela aula chata começa. É nele que eu penso quando deito na minha cama estreita e quero abraçar alguma coisa. O mais estranho é que eu passei a procurar por ele durante a noite, mesmo tendo a clara certeza de que ele não está dormindo comigo.

Isso é novo para mim, sentir essa coisa forte e intensa por alguém. É um sentimento estranho que me sufoca quando não colocado para fora, parece que tal sentimento pode me fazer explodir se eu não demonstrar o que estou sentindo. Às vezes, eu me pego esperneando e me lamentando porque ainda falta muito tempo para nos vermos. Tempo demais nunca é tempo suficiente. Eu bato na tecla da saudade, mas como é difícil aguentar a saudade! É sufocante e sufocante também é, muitas vezes, eu não conseguir colocar isso para fora. Eu costumo colocar as coisas para fora escrevendo, e esse pode ser um defeito, já que eu não consigo falar algumas coisas com muita frequência. Eu demonstro o que eu sinto, eu gosto de dizer com os olhos, com um beijo, com um carinho... E eu sou imensamente agradecida de ele entender isso. A vida é irônica. A vida é irônica e já faz dois meses que essa criatura rara e perfeita para mim entrou na minha vida. Dois meses que mais parecem dois séculos, isso porque somos almas velhas que se encontram em diferentes corpos desde que o mundo é mundo. E eu espero que nossas almas continuem se encontrando e nossos corpos continuem se tocando, porque o que eu tenho dentro de mim é muito grande para ser suprimido.

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