terça-feira, 10 de julho de 2012

[conto] Ficção Realista

Quando eu abri meus olhos de manhã, ela não estava mais deitada na cama. Estiquei minha mão para tocar suas costas nuas, mas toquei apenas o lençol escuro. Eu não estava acostumado a acordar e não ter a presença dela nos lençóis porque eu sempre acordava cedo enquanto ela ainda ruminava na cama. Mas ela resolvera acordar cedo naquela manhã, como em raras outras antes. E como nas outras raras ocasiões anteriores, ela estaria desfilando da cozinha para a sala com uma caneca de capuccino em uma das mãos e a outra atirando os cabelos de um lado para o outro. Suspirei e fechei meus olhos novamente, enterrando o rosto no travesseiro, antes de decidir me levantar. O cheiro do capuccino recém preparado começara a entrar pela porta entreaberta do quarto, assim como o rock sessentista que ela tanto adorava. Eu podia imaginá-la andando pela casa com os pés descalços, usando um roupão de tecido fino enrolado no corpo mignon. Ela estaria caminhando em direção ao canto da sala que chamávamos de biblioteca, onde uma estante de tamanho colossal completamente lotada de livros, dos mais diversos tipos, descansava. Lá, ela depositaria o título de ficção científica terminado na noite anterior e sentaria na escrivaninha para checar seus emails, totalmente concentrada na tarefa menos interessante que existia. Quanto a mim, dei mais um suspiro e resolvi me levantar da cama. Espreguicei-me no caminho até a sala, coçando os olhos para a luz da janela grande e encontrando-a exatamente como tinha imaginado. Os olhos grandes e castanhos se ergueram para me olhar e um sorriso apareceu na boca de lábios disformes. “Seu cabelo parece um ninho de pássaros”, ela disse, como se aquilo pudesse ser um bom dia. “Você pode usar isso como característica do seu próximo personagem”, eu brinquei, consciente de que ela usava muito de mim em cada personagem criado em seus contos e nos livros em progresso. Eles tinham meu nariz, meus cabelos, minha altura, minha voz... Todos os personagens dela tinham algo de mim e eu gostava disso pelo que representava. Caminhei até ela e dei um beijo em sua testa para depois caminhar até a cozinha e garantir um pouco daquele capuccino para minha caneca.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Shiloh Nouvel, a Mulher Livre

Há algum tempo atrás, minha mãe me mostrou uma notícia que falava sobre a filha de Brad e Angelina, Shiloh. Apenas por existir essa menina é notícia, mas o que vinha chamando a atenção da mídia era o modo que a menina de três anos (na época) se vestia. Ela usava o cabelo cada vez mais curto, roupas cada vez mais masculinas e, aquilo que a notícia gritava, queria ser chamada de John pelas pessoas ao seu redor. Um tablóide americano ainda foi mais longe, afirmando que Angelina é quem estava transformando a filha em um menino. Quando perguntada, Jolie disse não se preocupar com a sexualidade da filha e que também teve uma fase em que gostaria de ser menino e que se vestia como um. Minha pergunta é: porque essa notícia é tão bombástica? E a de vocês deve ser: o que teria a filha de Brangelina a ver com o termo "Mulher Livre"? Eu afirmo que tudo.

domingo, 1 de julho de 2012

[conto] Carona

“A estrada é a vida”, ela tinha lido a frase de Sal Paradise quando era adolescente e nunca mais esqueceu. Estampou a frase nos muros da cidade, na parede do quarto e no corpo. Com dezesseis anos, sem a autorização dos pais, acampou pela primeira vez com os amigos. Com dezoito anos, tirou a carteira de motorista e, sem a ajuda dos pais, comprou um opala antigo para poder viajar. Com vinte e cinco, ela conhecia a metade sul do país. Não tinha pretensões de estudar ou de trabalhar em uma grande empresa. Seu diploma de ensino médio estava perfeito e suas experiências em mil trabalhos temporários também. A estrada não pede por referências. A estrada pede coragem e espírito livre e isso, ah, isso ela tinha de sobra. Apesar da coragem, ela não andava sozinha. Tinha um facão debaixo do banco do motorista e uma espingarda de caça no porta-malas, mas não era segurança suficiente. Viajava com os amigos, amigos como ela que eram perfeitos para a estrada porque sabiam o que a estrada exigia. Quando tinha vinte e oito conheceu um cara e seus olhos brilharam. Ele usava uma camiseta velha com a frase de Sal Paradise, carregava uma mochila gasta e pedia carona na beira da estrada. Ela não pensou duas vezes e mandou o amigo parar o carro. O cara agradeceu e capotou no banco de trás, enquanto ela capotava no banco da frente. A estrada podia ser cruel e exigir coragem, mas sempre dava presentes. Ao amigo, o presente era chegar à ponta norte do país. A ela, o presente era o cara barbudo usando uma camiseta com a frase de sua vida. Ela tinha certeza.