domingo, 5 de agosto de 2012

[conto] Barreira

Não foi de uma hora para a outra que o mundo resolveu se apagar para mim. Começou com pequenos encobrimentos, como o teto de grandes salões ou rostos de pessoas muito próximas. Quando eu percebi, o meu campo de visão estava tão pequeno que eu precisava de uma lupa para conseguir ver meu próprio nariz no espelho. Então, eu acordei certo dia e não abria os olhos. Eu esticava as pálpebras, acendia a luz do abajur e chegava tão perto dela que sentia o calor no meu rosto, mas a luz não passava por aquela barreira negra que cobria meus olhos. O mundo tinha escurecido e se transformado em um grande emaranhado de sensações e ruídos. Alguns sentiram pena de mim, outros diziam que eu tinha merecido, mas a única coisa que me ocorria é que eu tinha uma nova oportunidade de enxergar o mundo. A barreira negra me impedia de ver, mas eu passara a enxergar uma realidade diferente daquela que eu conhecia antes. Eu percebi que as rosas têm cheiro e que cada pessoa tem um perfume completamente diferente da outra. Eu descobri que a grama era acetinada sob meus pés descalços e que o vento me fazia sentir cócegas. Eu conseguia sentir o gosto deixado pelo louro no feijão e sabia definir perfeitamente as divisões gustativas da minha língua. Eu aprendi a ouvir o som do mar e a entender que um mi é completamente diferente de um fá. Depois de alguns anos convivendo com aquela barreira, eu passei a desconsiderar quem tinha pena de mim ou quem achava que eu merecia aquele mundo completamente escuro. Eu ignorava essas opiniões e aprendia a viver com aquelas que realmente importavam, porque vivendo naquele mundo escuro eu tinha aprendido a sentir. A realmente sentir.

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