quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Feminismos e subversivos

Se alguém me perguntasse, eu não saberia dizer quando exatamente o meu feminismo aflorou, mas foi no ano passado que eu me dei conta de que eu era uma feminista. Eu sempre fui dessas que queria direitos iguais em tudo perante a sociedade, que nunca se importou em sair na rua com a depilação atrasada, que nunca achou que 'mulher' e 'homem' eram papeis biológicos e que queria o fim imediato do patriarcado e da cultura do esturpo. Depois de superar os meus próprios preconceitos, eu me classifiquei como feminista e não me importo nem um pouco com o que as pessoas possam pensar disso porque eu sei que é puro preconceito.

No senso comum, a feminista é uma mulher de cabelos curtos, estilo masculino, comportamento rude, não-depilada, lésbica e odiadora dos homens. Essa é uma imagem que se perpetuou, principalmente, depois da primeira onda do feminismo (aquela que originou o voto feminino) e foi mantida e disseminada por aqueles que não estavam gostando nada de a mulher ter a ousadia de sair da cozinha. Na vida real, porém, a feminista é uma mulher que busca a igualdade e o respeito acima de tudo, sem se importar em ser chamada de mal-comida ou vadia, porque ela sabe que isso é parte da desmoralização social reservada às feministas.

domingo, 20 de janeiro de 2013

'Liberal Arts' e a arte de namorar alguém mais velho

Eu adoro filmes indie e quanto mais indie, com atores desconhecidos, roupas incríveis e uma história que poderia estar em um livro para jovens adultos, melhor. Então, entre os meus favoritos está Like Crazy e o novo Liberal Arts, com a apaixonante Elizabeth Olsen. Quem diria que eu me apaixonaria por uma trama que parecia extremamente manjada? Porém, eu me apaixonei por tudo naquele filme e eu sei que eu me apaixonei porque eu me identifiquei com o final realista, sensível e revelador que ele teve.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

[conto] Você é o Lobo

O sol estava alto no céu, refletindo seus raios no asfalto quente da via expressa por onde eu caminhava. Eu podia sentir as gotas de suor caindo pelo meu rosto e molhando a minha camiseta, mas nada era muita coisa. Com os olhos quase fechados por conta da claridade, eu cambaleava pela estrada vazia. Um pé na frente do outro, um pé atrás do outro. Era verão, todos estavam de férias, mas eu não conhecia mais ninguém. Eu estava sozinho e desde que ficara sozinho no mundo, só tinha a companhia de um vinho barato. Ele manchava meus lábios de vermelho e no meu caminhar bruxuleante, gotas de vinho vermelho barato caiam nas minhas roupas e se tornavam manchas densas nos tecidos. Era verão e aquela via expressa levava diretamente à areia branca da praia, mas eu não via carro algum por lá. Talvez todos aqueles que tivessem alguém estivessem na areia branca, se deixando queimar pelo sol e sem suar como eu suava. Minha garrafa de vinho barato estava terminada e minha camiseta não tinha mais espaços secos quando eu vi aquela mulher. Ela caminhava em minha direção, fazendo um barulho irritante com suas pulseiras e saias longas. Ela não sentia calor, aparentemente. Cabelos espessos largados ao redor do rosto, uma blusa fina que deixava os ombros à mostra e os pés descalços no asfalto quente. Eu esperei passar diretamente por ela, mas a cigana segurou meu braço e sussurrou palavras devastadoras nos meus ouvidos: “você não vai encontrar ninguém lá”. E continuou seu caminho, pisando com os pés descalços no asfalto quente sem se preocupar em queimá-los. Palavras devastadoras e dignas de atenção. Eu não encontraria ninguém lá e em um lugar algum. Eu era um ser sozinho, lembra¿ A areia branca não estava longe, eu podia ouvir o barulho do mar e por isso não me detive a pensar nas palavras devastadoras da cigana. Porque as palavras eram devastadoras, afinal de contas¿ O mar estava perto. Estava tão perto que eu podia sentia o vento no meu rosto; eu podia ouvir o vento e podia ouvir um farfalhar de pulseiras de metal vindo de trás de mim. Me virei rapidamente e encontrei o rosto misterioso da cigana novamente. Ela não segurou meu braço dessa vez, mas deu um sorriso vencedor. Eu esperei ouvir a voz dela, mas ela não disse nada. Apenas me ultrapassou na caminhada e me deixou para trás. Ela corria, mantendo o barulho irritante das pulseiras. Eu me deixaria pensar nas palavras e no sorriso dela dessa vez. Caminhei mais rápido, larguei a garrafa de vinho e consegui alcançá-la. Corri ao lado dela. O barulho da minha respiração era abafado pelo farfalhar das pulseiras. A cigana abriu a boca e eu esperei aquelas palavras como se fossem a única coisa que eu precisava para viver. “Você o lobo, deixe a cidade”, ela disse numa voz baixa, mas ainda mais alta do que as pulseiras. Eu parei minha corrida e ela seguiu em direção ao vento marítimo e à areia branca. Eu era o lobo e devia deixar a cidade. Com os olhos, procurei a cigana para tentar pescar mais algumas palavras dela, mas a mulher tinha sumido; junto com ela sumiram o farfalhar das pulseiras, o vento marítimo, a via expressa, a garrafa de vinho e o sol escaldante de verão. Eu me vi com a lua cheia acima de mim, um vermelho sangue cobrindo minha boca e gotas dele pela minha roupa. A cigana não corria e suas pulseiras não faziam barulho, mas a voz dela emanava pelo corpo rasgado. Eu era o lobo e devia deixar a cidade.
 Inspirado na música "You're a Wolf" da banda Sea Wolf.