sábado, 16 de fevereiro de 2013

[conto] Metafória Escova de Dente

Um dia ela sentou em frente ao computador com uma caneca de chá ao lado e um documento vazio a sua frente. Ela não costumava escrever, não costumava usar os documentos digitais para nada além de trabalho, mas naquele dia, ela teve ideias. Várias ideias passaram pela sua cabeça, mas apenas uma ficou lá. A casa estava vazia e apenas não estava silenciosa porque o gato miava pedindo por comida. Havia apenas uma escova de dente no banheiro e ela sempre cozinhava sozinha. Ela insistia que não precisava de outra escova de dente no banheiro e que comer em restaurantes ou pedir pizza estava de bom tamanho, mas naquele dia, quando ela encarou o documento em branco, percebeu que precisava. Ela precisava se incomodar com outra toalha molhada em cima da cama e brigas pela louça suja. Ela precisava que outra pessoa também desse comida ao gato e abrisse as janelas. Ela se convenceu de que não estava tão bem sozinha como fingia estar e não precisou de ninguém para lhe dizer isso, mas ela não conseguiria sozinha. O documento em branco pareceu perfeito e quando ela percebeu, seus dedos roçavam os botões do teclado jogando palavras para todos os lados e alívio para dentro de si. Ela se lembrou de tudo: dos nomes, dos locais e dos sentimentos. Ela lembrou que nunca conseguiria ter outra escova de dente no banheiro se aquelas palavras não ganhassem vida própria e delineassem sua própria existência naquele documento em branco. Ela tinha apenas começado quando a caneca de chá se esvaziou e o gato ficou em silêncio. Ela podia ver as cenas em sua frente enquanto escrevia e podia perceber onde tinha errado e onde podia melhorar. Superar pessoas e sentimentos nunca tinha sido um forte, mas quando ela percebeu o documento estava cheio de superação e análise. Demorou um pouco para a barreira cair, mas quando o sol transbordou na sala de manhã e o gato acordou pedindo comida, ela entendeu que estava pronta para tentar encontrar uma escova de dente a mais para seu banheiro.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Admirável Mundo Estereotipado

Há algum tempo atrás, as pessoas pareciam ser mais fáceis de se ler, de se interpretar e de se classificar; sim, por que o que seria do ser humano se ele não pudesse classificar as coisas e criar estereótipos para tudo?! É sabido que os brasileiros gostam de carnaval, que as portuguesas têm bigode, que os árabes são terroristas e que meninos jogam Call of Duty. Eis que com a chegada desse abençoado mundo globalizado, de informação rápida e livre expressão, as coisas mudaram e essa classificação vai sendo esquecida, porque o mundo não é mais preto e branco, com suas delimitações de personalidade e preferências, mas se torna mais cinza a cada instante. E eu tenho que admitir que, nesse caso (no caso de desmatamento, não) eu prefiro o cinza.

Foi um episódio da ótima The New Normal que me deixou mais certa disso. Na trama do episódio, dois homens estavam sob suspeita de serem gays pelas namoradas apenas porque apresentavam comportamentos e gostos que homossexuais apresentam. Ao final descobrimos que um deles é gay, enquanto o outro não é, mesmo que eles se comportassem de maneiras iguais. Aquele que não é gay comenta que o mundo não é mais preto ou branco e que as pessoas tem que começar a se acostumar com isso. E essa é a mais pura verdade! Nada mais é o que parece ser nesse mundo mudado, onde héteros podem perguntar qual é o condicionador que a cabeleireira da namorada usa ou gays podem assistir futebol na TV o dia inteiro.