domingo, 1 de julho de 2012

[conto] Carona

“A estrada é a vida”, ela tinha lido a frase de Sal Paradise quando era adolescente e nunca mais esqueceu. Estampou a frase nos muros da cidade, na parede do quarto e no corpo. Com dezesseis anos, sem a autorização dos pais, acampou pela primeira vez com os amigos. Com dezoito anos, tirou a carteira de motorista e, sem a ajuda dos pais, comprou um opala antigo para poder viajar. Com vinte e cinco, ela conhecia a metade sul do país. Não tinha pretensões de estudar ou de trabalhar em uma grande empresa. Seu diploma de ensino médio estava perfeito e suas experiências em mil trabalhos temporários também. A estrada não pede por referências. A estrada pede coragem e espírito livre e isso, ah, isso ela tinha de sobra. Apesar da coragem, ela não andava sozinha. Tinha um facão debaixo do banco do motorista e uma espingarda de caça no porta-malas, mas não era segurança suficiente. Viajava com os amigos, amigos como ela que eram perfeitos para a estrada porque sabiam o que a estrada exigia. Quando tinha vinte e oito conheceu um cara e seus olhos brilharam. Ele usava uma camiseta velha com a frase de Sal Paradise, carregava uma mochila gasta e pedia carona na beira da estrada. Ela não pensou duas vezes e mandou o amigo parar o carro. O cara agradeceu e capotou no banco de trás, enquanto ela capotava no banco da frente. A estrada podia ser cruel e exigir coragem, mas sempre dava presentes. Ao amigo, o presente era chegar à ponta norte do país. A ela, o presente era o cara barbudo usando uma camiseta com a frase de sua vida. Ela tinha certeza.

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