terça-feira, 26 de março de 2013

Criaturas sobrenaturais e sua subjetividade

Na noite passada, eu assisti um filme que eu nunca tinha sentido vontade de ver, mas que, como estava dando na televisão, resolvi dar uma chance: O Lobisomem com o Benício del Toro. Um monstro ataca pessoas num vilarejo, o personagem do Benício del Toro é mordido, trama vai, trama vem, meu pai comenta que "bom que fizeram um lobisomem e não um homem que se transforma em lobo". Isso me fez franzir a testa porque a todo momento, eu pensava que um lobo humanóide é bobagem e que o melhor mesmo é um homem que se transforma em lobo. Para mim, a mágica está mais presente onde a essência humana é devorada totalmente pela do animal, mas para o meu pai o interessante é quando o monstro faz jus à palavra lobisomem. E eu fiquei surpresa quando isso me levou a pensar nas criaturas da Stephenie Meyer e nas nossas representações favoritas desses monstros.

Essas criaturas sobrenaturais são subjetivas demais para que a gente dê só uma representação para elas. Não que eu esteja defendendo o Clã Cullen ou os Irmãos Salvatore, até porque eu acho que tudo tem um limite, mas tudo o que existe acerca dessas criaturas são imaginação humana, lendas urbanas e mais imaginação humana... Porque escolher apenas uma versão e demonizar as outras? O ser humano nunca vai concordar com apenas uma visão das coisas, nunca vai existir um certo e errado válido para todos ou uma interpretação igual para todos, assim como nunca vai existir uma versão verdadeira de uma criatura que ao menos existe.


quarta-feira, 20 de março de 2013

[conto] Cortiço da Vida

Não era difícil de imaginar porque o livro favorito de Viviana era “O Cortiço”. Ela não levava uma vida como a minha ou a sua e nem tinha nascido como você e eu. Viviana nunca teve um pai ou um cachorro, nunca teve horários para chegar em casa ou para sair. Devorava todo o tipo de informação que conseguia, apesar de ter terminado a escola aos trancos e barrancos, e, por ter dominado a incrível arte da observação, sabia mais da vida do que eu e você pensamos saber. A mãe de Viviana não sabia que estava grávida até que o bebê chutou. O parto foi feito em casa, por uma das amigas da mãe, porque ninguém ali tinha dinheiro para pagar pelo hospital. Aliás, Viviana cresceu em um prédio onde viviam apenas mulheres nos apartamentos minúsculos. Os homens eram vistos apenas entrando ou saindo dos apartamentos e descendo ou subindo as escadas. Viviana apenas descobriu o porquê disso quando tinha idade suficiente para entender o que a mãe e as amigas faziam sem que elas precisassem contar. A mãe de Viviana nunca contou o que fazia ou se sabia quem era o pai dela, ela apenas dizia e repetia que o destino da filha seria outro. Frase típica, Viviana pensava todos os dias quando descia as escadas do prédio para ir para à escola. A mãe nunca recebia homens no apartamento, Viviana fora criada longe da movimentação diurna do lugar, mas seu talento para observação era o suficiente. Ela cruzava com eles nas escadas, os via entrando e saindo dos apartamentos, ouvia quando as mulheres comentavam tamanhos de pênis e hábitos de higiene... Ela se sentia n’O Cortiço. Apertava o livro contra o peito e pensava quem poderia se encaixar nos personagens. Não existia um João Romão naquele prédio, já que todos os apartamentos eram comandados por suas próprias donas, mas Viviana conseguia identificar Rita Baiana como Danuza, a exuberante negra do último andar e sua alegria sendo exalada pelos corredores. Ela conseguia visualizar Machona na robusta Oriana que, se pudesse só atenderia mulheres, e Pombinha na delicada Isandra, que tinha feito faculdade, mas que não tinha vontade de sair da vida. Viviana não era como elas por insistência da mãe e por proteção das outras meninas do prédio, porque não faltavam propostas para a mocinha que ninguém sabia como contratar. Ela já tinha sido pressionada nas escadas, apalpada pelos corredores e recusado dinheiro para tocar certos lugares masculinos... Não adiantava, ela não cedia. Tinha ouvido que seria diferente desde que era um bebê e pretendia manter a promessa. Viviana deixava a mãe orgulhosa e foi motivo de festa no prédio quando seu nome estampou uma lista de vestibular. Ela pensava n’O Cortiço e na faculdade quando decidiu deixar o prédio e começar a trabalhar. A mãe tinha dito a vida inteira que ela seria diferente e estava na hora de começar a ser, embora ela soubesse que nunca negaria o lugar de onde tinha vindo. Viviana não aprendera respeito e prazer em viver na escola ou na rua, ela tinha aprendido ali no prédio, naquele seu cortiço pessoal.