quarta-feira, 20 de março de 2013

[conto] Cortiço da Vida

Não era difícil de imaginar porque o livro favorito de Viviana era “O Cortiço”. Ela não levava uma vida como a minha ou a sua e nem tinha nascido como você e eu. Viviana nunca teve um pai ou um cachorro, nunca teve horários para chegar em casa ou para sair. Devorava todo o tipo de informação que conseguia, apesar de ter terminado a escola aos trancos e barrancos, e, por ter dominado a incrível arte da observação, sabia mais da vida do que eu e você pensamos saber. A mãe de Viviana não sabia que estava grávida até que o bebê chutou. O parto foi feito em casa, por uma das amigas da mãe, porque ninguém ali tinha dinheiro para pagar pelo hospital. Aliás, Viviana cresceu em um prédio onde viviam apenas mulheres nos apartamentos minúsculos. Os homens eram vistos apenas entrando ou saindo dos apartamentos e descendo ou subindo as escadas. Viviana apenas descobriu o porquê disso quando tinha idade suficiente para entender o que a mãe e as amigas faziam sem que elas precisassem contar. A mãe de Viviana nunca contou o que fazia ou se sabia quem era o pai dela, ela apenas dizia e repetia que o destino da filha seria outro. Frase típica, Viviana pensava todos os dias quando descia as escadas do prédio para ir para à escola. A mãe nunca recebia homens no apartamento, Viviana fora criada longe da movimentação diurna do lugar, mas seu talento para observação era o suficiente. Ela cruzava com eles nas escadas, os via entrando e saindo dos apartamentos, ouvia quando as mulheres comentavam tamanhos de pênis e hábitos de higiene... Ela se sentia n’O Cortiço. Apertava o livro contra o peito e pensava quem poderia se encaixar nos personagens. Não existia um João Romão naquele prédio, já que todos os apartamentos eram comandados por suas próprias donas, mas Viviana conseguia identificar Rita Baiana como Danuza, a exuberante negra do último andar e sua alegria sendo exalada pelos corredores. Ela conseguia visualizar Machona na robusta Oriana que, se pudesse só atenderia mulheres, e Pombinha na delicada Isandra, que tinha feito faculdade, mas que não tinha vontade de sair da vida. Viviana não era como elas por insistência da mãe e por proteção das outras meninas do prédio, porque não faltavam propostas para a mocinha que ninguém sabia como contratar. Ela já tinha sido pressionada nas escadas, apalpada pelos corredores e recusado dinheiro para tocar certos lugares masculinos... Não adiantava, ela não cedia. Tinha ouvido que seria diferente desde que era um bebê e pretendia manter a promessa. Viviana deixava a mãe orgulhosa e foi motivo de festa no prédio quando seu nome estampou uma lista de vestibular. Ela pensava n’O Cortiço e na faculdade quando decidiu deixar o prédio e começar a trabalhar. A mãe tinha dito a vida inteira que ela seria diferente e estava na hora de começar a ser, embora ela soubesse que nunca negaria o lugar de onde tinha vindo. Viviana não aprendera respeito e prazer em viver na escola ou na rua, ela tinha aprendido ali no prédio, naquele seu cortiço pessoal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se sinta à vontade para comentar o que quiser sobre o artigo lido, apenas mantenha o respeito às pessoas.