domingo, 8 de setembro de 2013

[conto] Máquina urbana do tempo

Parecia que nós tínhamos adentrado em outra cidade, em outra época, com outra trajetória e com outras sensações. A rua contava com uma cobertura de árvores, como em um túnel natural, que filtrava a luz do sol e dava a impressão de estarmos rodeados por verde, embora só houvesse prédios adornando aquelas calçadas. À nossa direita, um terreno se estendia e carregava uma mansão antiga com ele. As janelas, vedadas com madeira contaminada por cupim, eram de vidro decorado; pequenos círculos feitos de linha se escondiam debaixo da ação do tempo, da sujeira deixada pelo tempo e pela falta de cuidados. Toquei o desenho e tentei reaviva-lo, mas acabei limpando o dedo no seu braço sem ter tido sucesso. Minha risada encheu a rua, se misturando com o cantarolar dos pássaros que povoavam aquele túnel verde acima de nós e, de repente, não estávamos mais num centro urbano. De repente, estávamos caminhando por um túnel do tempo. À nossa esquerda, uma imensidão mesclada de história e modernidade, de tecnologia e de conservadorismo, de janelas de madeira e aparelhos de ar-condicionado, de buzinas e de instrumentos musicais clássicos... Então, você apontou para aquilo que era óbvio, mas que eu ainda não tinha visto. Eu estava errada. Não era a mansão à direita, o túnel povoado por pássaros acima de nós ou a mescla do ontem e do hoje à esquerda que me levava para outros tempos e outros espaços. A nossa frente é que estava a verdadeira máquina do tempo, feita de degraus de pedra e barras de ferro retorcidas; uma escada feita de histórias presa em meio à selva de pedra, cercas elétricas e moradores de rua. Eu me vi imaginando todas as pessoas que já tinham pisado ali e o que as tinha levado até aquele lugar esquecido pela cidade. Eu me vi pensando nas roupas que elas usavam quando passavam por ali, as pessoas que estavam com elas e no que estavam pensando quando subiram ou desceram aqueles tantos degraus. Era engraçado que existisse uma máquina do tempo no centro da cidade e tão poucas pessoas soubessem dela e era engraçado, e um pouco mal educado, que eu tivesse me esquecido de agradecer a você por me mostra-la.