quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ditadura da Depilação X Eu

- Quando eu tinha sete anos, meu apelido na creche era "Lobisomem Dentuço", uma alusão nada gentil a quantidade excessiva de pelos que eu tinha nos braços e aos meus dentes da frente levemente avantajados.

O que eu fazia depois disso? Eu chorava, porque um lobisomem dentuço não é uma coisa que se pode chamar de bonita.

- Quando eu tinha onze anos, no primeiro dia de aula da quinta série, uma colega que eu ainda não conhecia me perguntou porque as minhas canelas eram peludas. Segundo ela, eu já estava na quinta série, então eu já deveria depilar as pernas porque meninas não tinham pelos nas pernas.

O que eu fiz depois disso? Enchi o saco da minha mãe para ela me deixar depilar as pernas, porque eu queria ficar bonita.

- Quando eu tinha treze anos, passando uma semana na casa de uma tia minha, ela ficou olhando as minhas costas (mais para baixo, no cóccix [?]), durante um bom tempo e depois me disse que eu tinha muito pelo nas costas e, dando aquele sorriso de quem falava sério, mas queria fingir que era brincadeira, me disse que ficava bem estranho para uma menina ter pelos/penugem nas costas.

O que eu fiz depois disso? Voltei a usar blusas mais compridas por um tempo, porque eu tinha vergonha de ter pelos/penugem nas costas.

- Quando eu tinha quinze anos, no meio de uma conversa normal com o meu recém feito namorado, eu perguntei o que os amigos dele achavam de mim, então ele me respondeu cheio de dedos que "nada", mas ele completou depois de algum tempo dizendo que os amigos dele comentavam que eu tinha bigode.

O que eu fiz depois disso? Eu descoloria o meu buço mais de uma vez por semana para garantir que ninguém pensasse que eu tinha bigode.

- Quando eu tinha dezoito anos, uma colega me perguntou por que eu nunca tinha feito a sobrancelha, "já que ela era super grossa e parecia com a de um homem".

O que eu fiz depois disso? fiz a sobracelha, porque uma menina com sobrancelha grossa sem fazer não é bonita.

- Quando eu tinha vinte e três anos, durante uma sessão de depilação, a depiladora me perguntou se eu queria depilar os pelos da minha barriga, porque eles eram super grossos e pretos e ficava estranho ter pelos na barriga.

Sabe o que eu fiz depois disso? Eu disse "não, não precisa, eu gosto da minha barriga assim mesmo".


Nenhuma dessas pessoas (exceto no primeiro caso, porque aquilo certamente era bullying) teve a intenção de me machucar e de magoar com esses comentários, acredito eu, mas elas expressam uma coisa que está se enraizando na nossa sociedade: a ditadura da depilação. Não existe essa de "se depila quem quer", porque, se eu não depilasse as minhas pernas aos onze anos, aquela menina ia começar a me encher o saco e nunca mais ia parar. Se eu não tivesse descolorido o meu buço aos dezesseis, os amigos do meu namorado continuam dizendo que eu tinha bigode e o meu namorado não ia querer namorar uma mulher barbada. Se eu não depilar as minhas pernas e as minhas axilas antes de uma entrevista de emprego, vocês acham que eu consigo a vaga? É claro que não! E não falem sobre personalidade para ignorar a opinião dos outros porque isso é impossível durante a infância e a adolescência.

Isso é prejudicial, acaba com qualquer resquício de amor próprio que uma menina pode ter. A gente para de se achar bonita porque não se encaixa nos padrões e isso pode desencadear uma série de problemas de autoestima e de desenvolvimento social. Eu tive problemas de autoestima quando eu era mais nova, justamente porque eu sempre me achei peluda demais, então era certo que eu não podia ser bonita. Eu me achava estranha e achava que ninguém nunca ia olhar para mim. Eu odiava colocar pulseiras porque eu achava que era como colocar um cordão em volta de uma floresta. Eu depilava as pernas e as axilas todos os dias para não correr o risco de ser chamada de macaca.

Eu me odiava.

Mas, depois de crescer e abrir os olhos para certas coisas (como machismo e ditaduras da magreza e da depilação), eu me tornei uma pessoa mais feliz. Eu reaprendi a amar o meu corpo. Eu aprendi a gostar dos meus pelos, afinal, eles nasceram comigo, eles estão aqui me acompanhando, então porque lutar contra? Eu aprendi a amar o meu cabelo cacheado e, hoje, quando eu aliso, é só por diversão. Eu aprendi que sobrancelhas grossas ou sem fazer também podem ser bonitas e que, se eu tomar banho todos os dias e usar desodorante, é óbvio que eu posso atrasar a depilação em alguns dias (não adianta, essa coisa de que "tem que se depilar por higiene" é balela). A questão é se amar. E nós precisamos ensinar essa lição à próxima geração, porque eu não quero ver mais meninas passando pelo que eu passei por causa de padrões de beleza e comportamento ensinados errado.

Um comentário:

  1. Excelente depoimento. A sua tomada de consciência é inspiradora. Acredito que essa sua atitude deve ter mudado muita coisa na sua vida ou então essa decisão tenha sido um dos tantos desdobramentos que devem vir dessa consciência. Um pessoa mais segura e forte nascia e não cabia mais espaço para imposições. Parabéns.

    ResponderExcluir

Se sinta à vontade para comentar o que quiser sobre o artigo lido, apenas mantenha o respeito às pessoas.