sábado, 8 de março de 2014

Como "Bitten" é uma série sobre os opressores

Faz algumas semanas que eu venho acompanhando uma série chamada “Bitten” que estreou na televisão canadense no ano passado. A série fala sobre o universo dos lobisomens e, principalmente, sobre Elena, uma mulher que foi a única a sobreviver à mordida de um lobo e se tornou uma loba. Elena não gosta muito da nova condição dela e faz de tudo para levar uma vida normal, mas precisa se reencontrar com a personalidade lupina quando a segurança dela e da matilha dela entra em jogo. No universo de Bitten, uma única matilha representa as leis e a ordem da sociedade lupina, então são eles quem ditam as regras e são eles que aplicam o castigo em quem transgride essas regras.

Elena Michaels
Os lobos que não fazem parte dessa matilha, dessa família, são chamados de Mutts e vivem à parte na sociedade, sem conseguir manter residência fixa e sem poder construir famílias (no caso, matilhas), porque isso é contra as leis criadas pela matilha alfa. Jeremy Danver é o lobo alfa de toda a sociedade lupina e funciona como um rei ou imperador, onde a última palavra é sempre dele e não importa o que pensem os outros, nem mesmo aqueles que vivem debaixo do mesmo teto que ele, que seriam como um conselho. Elena faz parte desse “conselho”. Apresentada a estrutura política dessa sociedade, o que vem à nossa cabeça?

A sociedade de Bitten, a meu ver, nada mais é do que uma ditadura, onde uma matilha, com um rei e um pequeno conselho, decide e manipula a vida de várias pessoas que são obrigadas a levar uma vida muito diferente daquela que eles levam. Os Mutts são obrigados a serem nômades, já que a matilha não deixa que eles fiquem muito tempo no mesmo lugar; eles também são obrigados a andar sozinhos, porque dois ou mais Mutts juntos é sinal de rebelião. E quem quer perder o poder, não é mesmo? Tudo bem, talvez o conceito de ditadura seja um pouco extremo, mas a ideia de que a matilha é opressora faz muito sentido.

A família é o centro do poder dessa sociedade e retém todo o poder de manutenção de regras que foram estabelecidas há séculos, mas que são levadas do mesmo jeito no século XXI. A família se torna o opressor a partir do momento em que obriga, usa da coerção e até mesmo da violência para continuar no poder e para deixar as coisas do jeito que acredita ser o correto. Nesse sentido, os Mutts são os oprimidos, porque tem sua liberdade cerceada e tem que obedecer à regras com as quais não concordam completamente. Quando temos um opressor e um oprimido, as chances de descontentamento e rebelião são certas e é sobre essas duas consequências que Bitten constrói sua trama.


A Matilha
O ponto de vista dado ao espectador é o ponto de vista de Elena e, como ela faz parte da matilha, a trama nos mostra muito mais o dia a dia da matilha e, talvez bastante conscientemente, nos tenta a escolher defender a matilha. Na história, Elena é chamada de volta à família quando uma série de assassinatos coloca a culpa no líder da matilha, no rei e no imperador da sociedade lupina. A matilha também passa a sofrer ataques constantes e alguns membros são assassinados, aumentando ainda mais a raiva da matilha e eles terminam por descobrir que a culpa disso tudo é de um bando de Mutts que se aliou para acabar com a supremacia da matilha e pretende tirar o poder das mãos de Jeremy Danver. Isso, claramente, mostra o oprimido se levantando para lutar contra o opressor.

Como o ponto de vista apresentado é o ponto de vista da matilha, a nossa tendência é achar que os Mutts são vilões e que se eles aceitassem as regras impostas e se comportassem como a sociedade lupina requer, a paz continuaria reinando. Mas continuaria reinando para quem? Para a matilha, que terminaria mais um dia confortável em sua grande casa punindo aqueles que não respeitam as leis criadas há séculos e que ainda são mantidas por eles sem questionamento nenhum. O grande medo da matilha é a descentralização do poder e a perda de controle sobre os Mutts, porque eles acreditam que se a matilha se desfizer e o alfa for tirado do poder, o caos reinaria.

Clay Danvers (E) e Jeremy Danvers (D)
Será? A maior motivação dos Mutts que se rebelaram contra a matilha era, ou a vingança por alguma coisa familiar do passado ou em reclamação ao cerceamento de sua liberdade. Um dos personagens, talvez o mais interessante até agora, Daniel Santos, teve o pai assassinado pela matilha e busca vingança por isso. Ele tem várias frases célebres durante a série, tal como a comparação que faz dos membros da matilha com peças de xadrez, tal qual um pedido de ser integrado à matilha, pois ele queria se sentir mais seguro, como principalmente a reclamação que faz sobre o poder que a matilha tem na sociedade.

Ele se torna um dos principais agitadores dessa rebelião porque ele é muito esperto e quer, realmente, que a matilha pague pela morte de seu pai. Na verdade, tudo o que os Mutts rebeldes estão fazendo é devolver na mesma moeda o que já aconteceu com outros lobos solitários como eles. Eles constroem um exército de Mutts em resposta a um dos membros da matilha, Clay Danver, que é basicamente o responsável por aplicar os corretivos nos Mutts transgressores. “Nós criamos maníacos para nos igualarmos ao seu maníaco”, Daniel Santos diz em certo momento ao explicar a transformação de sociopatas e psicopatas em lobisomens, apontando para Clay. A posição da matilha na aplicação de corretivos, por falar nisso, não faz bem para esse personagem.

Mutts
Clay está cada vez mais violento e cada vez menos piedoso na medida em que é obrigado a aplicar esses corretivos e a rastrear Mutts, tanto que em uma das cenas, Jeremy manda que ele arranque os dentes de um Mutt que ousou desafiá-lo pela liderança, e Clay entra em um estado de choque depois de terminar a tarefa. Ele pede que Elena volte, pois ele sente que está começando a perder o controle. Jeremy também sai bastante prejudicado, porque precisa manter a pose de líder durão e aplicar as leis de uma maneira que não o agrada, pois ele não é um homem rude e violento naturalmente.

Bitten mostra o lado dos opressores em uma sociedade abusiva e eu, como uma defensora da liberdade e da igualdade, tenho a tendência de defender o oprimido, então eu fico ao lado dos Mutts, mesmo que a rebelião deles aja com muito mais violência do que eu acredito ser aceitável. Porém, ao mesmo tempo, eu penso se teria outra alternativa para ter suas reclamações e reinvindicações ouvidas do que chamando a atenção pela violência, que é uma forma de apelação. Não existe a possibilidade de uma passeata de Mutts ou de uma manifestação pacífica, pois as próprias leis dessa sociedade são violentas. Tudo o que os Mutts conhecem é a coerção na aplicação das leis e a violência na manutenção delas, então essa é a resposta que eles encontram para se fazer ouvir e se empoderar.

Daniel Santos
A série ainda está em seu oitavo episódio, então talvez tudo o que eu disse aqui nem faça tanto sentido assim daqui a algumas semanas, mas por hora, eu acredito que o opressor deveria abrir mão de seus privilégios e ouvir o oprimido para que a paz realmente seja atingida. Porém, tudo indica que o “bem” vai vencer o “mal” e que os Mutts serão colocados mais uma vez em seu lugar enquanto a matilha continuará exercendo o seu poder como sempre exerceu. Não é assim que, infelizmente, acontece na vida real?

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