quinta-feira, 12 de março de 2015

Dia 3 #30DiasdeDesafiodeEscrita

Olá!

Terceiro dia de Desafio de Escrita aqui no Poeira Literária e esse terceiro dia me pedia para escrever um conto de 500 palavras (o meu passou um pouco) e colocar nele uma frase que eu tinha ouvido em um diálogo, o último diálogo que eu tinha ouvido, para ser mais precisa. Antes de me trancar no meu quarto para escrever, ouvi meu pai falando com meu irmão sobre a nossa gata. Ela pedia para ir para rua e meu irmão não viu quando meu pai deixou que ela saísse, então ele perguntou onde estava a gata e meu pai respondeu: "Se mandou". Eis o meu fragmento de diálogo ordinário e diário adaptado a um conto dramático sobre exposições na internet e violência contra a mulher.



"Cheguei quase sem fôlego na esquina do prédio, depois de atravessar correndo metade da cidade para encontrá-la. Não precisei me postar exatamente na entrada do edifício ou muito próxima dele para conseguir vê-la, pois ela estava pousada delicadamente sobre a beirada do terraço, olhando na cara do destino com lágrimas nos olhos. Eu estava a doze andares abaixo dela, nunca poderia ter visto as lágrimas, mas eu sabia que elas estavam lá porque eu as tinha ouvido pelo telefone. “Eu vou acabar com isso tudo”, ela me disse quando eu atendi o celular com certa fúria, pois estava no meio de uma aula super importante. Não entendi imediatamente, mas depois lembrei de tudo o que ela tinha me contado no início da semana e de tudo que eu tinha visto na internet. “Não”, eu tinha começado, tentando me manter calma ao mesmo tempo em que voava para a sala de aula, pegava minhas coisas e saía correndo do prédio da faculdade. “Você não precisa acabar com tudo isso dessa forma, lembra que a gente já está resolvendo isso pela minha mãe?”, tentei tranquiliza-la, lembrando que minha mãe, advogada, já estava cuidando do caso dela e buscando quem tinha feito tudo aquilo com ela e publicado na internet. “Está na internet, nunca vai acabar!”, foi a última coisa que ela me disse antes de desligar o telefone e eu sentir o tonel de lágrimas verterem dos meus olhos. Eu não sabia que ela ia querer se atirar do alto do edifício que nós morávamos, mas sabia que ela faria alguma coisa contra si própria. Se não fosse o alto do prédio, seria o estilete, a tesoura, o forno do fogão ou a janela da cozinha... Ela conseguiria acabar com aquele sofrimento que estava sentindo de alguma maneira. Quando cheguei em frente ao edifício, vi que a polícia já tinha sido chamada. Tentei entrar, mas dois deles me pararam. “Nós duas dividimos um apartamento aqui no prédio, ela é minha melhor amiga!”, eu praticamente gritei, lutando para que mais nenhum tonel de lágrimas escapasse. Era melhor tentar me manter fria ou eles nunca me deixariam subir até o terraço. Por fim, eles me deixaram subir e eu tomei o elevador imediatamente até o décimo segundo andar, pulando de dois em dois degraus a escada para o terraço quando cheguei lá. Ela não estava sozinha lá em cima, tinha dois policiais com ela, conversando e argumentando. Um deles estava em pé na porta e o outro, uma ruiva pequenina, tentava se aproximar dela. “Sou a melhor amiga dela, deixa eu tentar”, eu disse para o policial na porta, mas a ruiva me ouviu e parou de falar. Ao ouvir o silêncio, minha amiga, que estava sentada na beirada do terraço curvada como uma gárgula, se virou bruscamente para me encarar, assustando os policiais e a mim. “Não adianta, eu não vou voltar ao normal”, ela me disse, com aquele desesperançado que eu acompanhara a semana toda. “Vai sim! Minha mãe vai conseguir colocar os estupradores na cadeira e tirar o vídeo da internet!”, eu tentei, mas ela apenas começou a chorar com mais força, como se as minhas palavras tivessem trazido à tona tudo de novo. Sem que eu pudesse impedir, e sem que os policiais pudessem fazer qualquer coisa a não ser correr até a beirada vazia do terraço, minha amiga se atirou lá de cima para encontrar o gélido concreto gelado da rua. “Se mandou”, eu ouvi a ruiva dizer pelo rádio. Que forma mais desrespeitosa de tratar o suicídio de uma vítima, eu lembro de ter pensado antes de desmaiar de pavor."

Até amanhã ;)

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