domingo, 15 de março de 2015

Dia 6 #30DiasdeDesafiodeEscrita

Ok, eu sei que eu deveria ter postado esse desafio ontem, mas eu resolvi não levar o calendário dele tão a sério e pular um dia. Eu precisava escrever alguma coisa sobre meu corte de cabelo novo e achei que ontem deveria ser o dia do corte de cabelo e não do sexto dia de desafio, portanto, aqui vai o post sobre o dia 6. O desafio do sexto dia me pedia para listrar os meus maiores cinco medos e escrever uma história para cada um desses medos, onde os meus personagens passagens por essas situações que me dão medo. Foi bem difícil listar meus cinco medos porque eu percebi que, na verdade, os meus medos são bem ridículos e não renderiam boas histórias. Mesmo assim, eu escrevi duzentas palavras sobre os meus maiores cinco medos: morrer, ficar sozinha na vida, ser estuprada, cair de uma altura alta e ter que matar um rato. Vamos ao resultado!



"O ACIDENTE: Ela estava com a cabeça encostada na janela do coletivo, no profundamente superficial sono de toda a viagem de ônibus, quando aconteceu. Não deu tempo de ouvir muita coisa porque tudo aconteceu com a rapidez de um segundo, mas ela conseguiu distinguir os sons dos pneus cantando e de algumas pessoas gritando antes que tudo ficasse escuro e silencioso. Por culpa de um motorista bêbado que dirigia como um louco, o motorista do ônibus de viagem que a levava tinha perdido o controle e apenas assistido, embora tivesse tentando reverter a situação com uma direção e pedais que não funcionavam mais, enquanto o veículo tombava e descia rolando uma ribanceira. Não havia muitas chances para quem estava no coletivo de viagem. Quem usava o cinto de segurança, ainda conseguiu evitar uma morte cheia de hematomas, mas ela, que tinha ignorado o cinto, já que ele atrapalhava a soneca, sentiu as consequências de rodar e rodar junto com o ônibus, colidindo no que estivesse em sua frente. Costelas quebradas, pulmão perfurado, fratura no crânio, pernas e braços esfolados e cravados com pedaços de vidro... não foi bonito.

O VAZIO: Não era exatamente tarde quando ela chegou em casa, mas a primeira coisa que fez foi trancar a porta, fechar as venezianas e encarar o apartamento vazio com certo desespero. As sacolas de compras foram largadas sobre o balcão da cozinha americana e ela chamou incessantemente pelo gato preto velho recém adotado, mas ele não apareceu. Antes de guardar as compras e até mesmo de trocar de roupa, ela ligou o rádio da sala e cantou junto com a seleção de músicas que conhecia desde a adolescência, como se ouvir aquelas vozes conhecidas, e cantar junto com elas, inundasse o apartamento de presenças. Ela não tinha para quem voltar toda a noite, por isso o gato. Desaparecido. Não tinha quem ligasse para ela, além de empresas oferecendo serviços de crédito. Se ela abrisse as redes sociais em seu computador ou celular, encontraria muitos fatos excitantes sobre a vida de seus amigos, mas não haveria nenhuma menção ou ponto vermelho brilhante. Ela vivia sozinha, trabalhava sozinha, saía sozinha e ficava em casa sozinha. Não tinha nem mais um gato preto velho recém adotado para lhe fazer companhia.

A CAMINHADA: Ela olhou para o relógio e apertou as sobrancelhas. Era tarde para estar na rua. Durante todo o caminho até em casa foi pensando em como seria descer do coletivo e caminhar a quadra que a levaria até seu edifício. Abriu a bolsa e caçou a chave do portão à medida em que ia se aproximando da parada onde desceria; lembrava sempre das lições que um colega de faculdade tinha lhe dado sobre usar uma chave como arma. Posicionou a ponta da chave entre os dedos e desceu do coletivo, olhando atentamente para todos os lados. Não segurou a bolsa com força ou com cuidado, não era aquilo ali que ela tinha medo de perder. Coisas materiais... Isso se conseguia novamente, ela já tinha passado pela experiência. Pensar que as coisas materiais poderiam não ser o suficiente para o ladrão, entretanto, a deixava em pânico. Fechava os olhos e tremia sempre que pensava que eles poderiam querer tocá-la e obriga-la a fazer coisas que não queria. Ela sabia que outras mulheres tinham esse medo também, o que não a confortava nem um pouco.

A QUEDA: Ela nunca poderia imaginar que enxergaria o mundo assim, tão do alto. O homem tinha lhe dito que aquele era o lugar mais alto da cidade, que ela poderia enxergar todas as pequenas cidades que rodeavam aquela em que estava e, realmente, ela podia identificar, pelo menos, cinco amontoados de luzes que formavam as cidades da região. Ela tinha dito que era lindo e tinha aberto um sorriso sincero de alegria quando se aproximou demais da beirada do morro. O homem não teve tempo de alcança-la porque ela já estava caindo quando ele gritou que era perigoso chegar tão perto da beirada. A queda não devia levar mais do que cinco segundos, mas durante o tempo em que descia em queda livre, ela encarou seu destino e observou vários detalhes sobre ele. Cairia sobre a copa de algumas árvores selvagens e ela imaginou que talvez houvesse alguma chance muito pequena de não morrer. As folhas poderiam amenizar os efeitos da queda, mas enquanto batia com força nos galhos e perdia a consciência, ela não teve mais essa esperança.

O ASSASSINATO: O grito dela ecoou por todo o andar do prédio com uma urgência que deveria ter acordado seus vizinhos e causado alguns toques em sua campainha, mas ninguém apareceu e ela se viu obrigada a ficar sob o mesmo teto daquele animal. A cena seria cômica se não fosse trágica. Parecendo a mais estereotipada representação feminina, ela tinha se jogado por sobre uma cadeira portando uma vassoura nas mãos. Os cabelo caiam ao redor do rosto em completo pânico, enquanto os olhos arregalados seguiam os movimentos do pequeno rato cinzento. Nunca tinha tido problemas em se livrar de baratas e assemelhados, até mesmo de aranhas ela já tinha se livrado, mas ao ver aquele rato e pegar uma vassoura com a intenção de mata-lo, a única coisa que vinha em sua cabeça era que ele tinha ossos, sangue e pelo. Ele tinha o exato tamanho de um filhote de gato que ela tinha pegado no colo uma vez e nem mesmo aquele pavor conseguia dissociar a ideia de que, se ela largasse aquela vassoura com toda a força sobre o pequeno animal, derramaria um punhado de sangue no tapete e quebraria vários ossinhos. Gritou mais uma vez e preferiu esperar ajuda."

E, sim, esses são meus medos reais. E, sim, eu não descrevi um estupro porque seria cruel e perturbador. Preferi ficar com só a ideia dele apavorando a minha personagem. E, não, eu nunca mataria um rato ou chegaria perto demais da beirada mortal de um morro.

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