sexta-feira, 12 de junho de 2015

Sobre uma tarde agridoce

Para ler ouvindo "Blue Afternoon" da Leighton Meester

Caminhando com uma vagareza sem igual, como que para esticar ao máximo os dez passos que precisava dar, ela olhou o relógio com as sobrancelhas apertadas e sentiu seu coração diminuir tanto de tamanho que doeu. O sol já tinha dado seu lugar ao mais lindo crepúsculo que ela já tinha tido a oportunidade de ver, o frio da noite já estava fazendo seus pelos se arrepiarem e seu ônibus logo passaria no ponto. Ela tinha consciência de que precisava ir embora, mas como fazer seu corpo realizar que precisava se despedir dele? Os olhos dela ergueram-se de súbito quando a voz grave dele soou, despertando-a da letargia da despedida.  
- Já está na hora? – ele perguntou, continuando a caminhada até se afastar das pessoas que também esperavam o ônibus como ela. Ele tinha as mãos enterradas nos bolsos dos jeans, protegendo os dedos do vento. 
- Sim – ela conseguiu responder, sentindo que a voz teria falhado se respondesse mais do que a afirmativa curta. Caminhou até ficar de frente para ele, erguendo os olhos castanhos para encarar os redondos dele. 
Não disse mais nada, apenas esticou os braços para frente e esperou enquanto ele entendia aquele convite e respondia com um esticar rápido de seus próprios braços para envolve-la. O abraço não durou mais do que dez segundos, mas ela pode sentir a eternidade passando ao redor deles, sem atingi-los de verdade. Sua cabeça repousou, encaixada perfeitamente na curva do pescoço dele, estrategicamente posicionada a receber todo e qualquer cheiro que vinha de sua pele. 
Ele tinha um cheiro específico, que ela não conseguia explicar, mas que sabia reconhecer mesmo quando se encontrava entre outras notas. Era quente e aconchegante, como uma cama confortável que se apresentava ao final de um dia cansativo de trabalho. Ela gostava daquele cheiro, gostava mais do que admitia. “Eu consigo sentir o seu cheiro”, tinha dito mais cedo, quando o sol ainda não tinha se escondido no horizonte. Não era comum que ela distinguisse cheiros, mas com o dele era diferente. Ela tinha conseguido catalogar aquela essência e poderia evoca-la quando quisesse. 
O abraço dele era forte na medida certa, não subjugava e não se deixava subjugar. O peito largo conseguia acomodar todo o tronco dela, enquanto os braços em sua cintura ajudavam a escondê-la do mundo real. Poderia ficar ali o dia inteiro, de olhos fechados e mente anestesiada, sentindo a respiração rápida dele bater de leve na pele nua de sua bochecha e roçando de leve as pontas dos dedos no tecido grosseiro e ardente da jaqueta xadrez que ele usava. Quase não sentiu quando as mãos dele passearam por seu cabelo, bagunçando os fios curtos como se não fizessem nada, leves como se não existissem. 
Um arrepio irremediável tomou conta de todo seu corpo quando ele depositou rapidamente um beijo em sua testa, transformando toda a posição em que estavam na calçada. Ela não tinha mais o rosto encaixado na curva do pescoço dele, de repente, mas se encontrava plantada em frente ao corpo largo dele, apenas sentindo enquanto os lábios desciam de sua cabeça para tocar com extrema gentileza sua testa. Ele ainda tinha as mãos em sua cintura e ela sentiu mais um arrepio quando o queixo de barba rala tocou a ponte de seu nariz, ensaiando uma descida lenta que ela sabia que não viria. 
Abriu os olhos de súbito, encarando os olhos dele com os seus quase fora de foco e desviou para o ponto de ônibus. Deu um pulo desconcertado ao perceber que o coletivo já estava ali, deixando que as pessoas entrassem e avisando silenciosamente que ela precisava ir embora. Olhou mais uma vez para os olhos dele, segurou seus braços com as mãos e se esticou nas pontas dos pés para tocar inesperadamente a bochecha dele com seus lábios. 
Desceu das pontas dos pés em uma corrida desvairada até a porta entreaberta do coletivo, deixando que suas mãos escorregassem por entre as dele, que tentavam leve e inutilmente impedir que ela partisse.

Conto escrito em uma tarde agridoce, onde tudo poderia ser se nada fosse o que fosse. Inspirado pela música "Blue Afternoon" da Leighton Meester (com link no início da postagem) e inspirado pela vida real.