segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

#MaratonaAperteOPlay: Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1984)

Olá!

E o primeiro filme visto para a #MaratonaAperteOPlay foi “Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, no original) dirigido pelo John Hughes e que estreou em 1984. Não sei porque eu nunca tinha assistido esse filme, provavelmente por preguiça de baixar ou esperar passar na televisão (tudo isso, claro, antes de existir o Netflix e nos presentear com streaming). John Hughes é um cara que tem uma bela reputação, que é citado como um dos melhores diretores de todos os tempos e como a cara dos anos 80, então eu não esperava menos dele. Um resumo antes de toda a resenha: “Clube dos Cinco” é muito bom, mas poderia ser genial.



Em Clube dos Cinco, nós conhecemos cinco adolescentes que chegam em um sábado de manhã em sua escola para passar mais de oito horas em detenção, de castigo por terem violado regras ou a conduta da instituição. Enquanto a cena inicial se desenrola, um narração já nos dá a ideia do filme: cinco adolescentes muito diferentes entre si precisam passar um dia inteiro juntos. A narração nos diz que veremos um cérebro, um atleta, uma maluca, uma princesa e um criminoso e nós já sabemos que essas pessoas tão diferentes, talvez por uma regra que o próprio filme tenha perpetuado, terminarão como amigos.

Enquanto assistimos aqueles adolescentes descerem contrariados dos carros dos pais ou tomarem seus lugares na biblioteca com expressões descontentes no rosto, percebemos que eles não tem nada em comum à primeira vista. Eles vêm de berços familiares diferentes, frequentam clubes e grupos sociais diferentes, têm interesses e atividades diferentes e se comportam de maneiras muito diferentes. Parece impossível que Andrew, John, Brian, Claire e Allison dividam histórias e visão de mundo, mas Clube dos Cinco nos prova o contrário.

Representado no filme, vemos algo comum na adolescência: a necessidade de pertencimento, a máscara da vulnerabilidade e a dúvida sobre a própria personalidade. A própria narração do filme, no primeiro minuto de película, nos fala sobre o lugar que eles pertencem na pirâmide social da escola e da vida. Temos a princesa, o atleta, o criminoso, a maluca e o cérebro. O filme começa rotulando os personagens e nos fazendo rotular esses personagens também, assim como os próprios personagens o fazem entre si porque não estão incomodados de serem reduzidos a um rótulo. É seguro para o adolescente estar dentro de uma categoria porque ali dentro ele tem sua necessidade de pertencimento sanada.

Numa época em que a dúvida sobre si próprio é constante, o caminho mais fácil para não se perder é ser reduzido a uma categoria e se comportar conforte a conduta daquela categoria. Temos a questão da dúvida representada por um personagem mais velho, um dos professores da escola, que pede que os cinco adolescentes escrevam uma redação dizendo quem são. Nenhum deles sabe dizer e essa é uma questão que fica até o final do filme, quando Brian diz que “não importa quem somos, importa que para você [para o professor] nós seremos sempre o cérebro, a maluca, a princesa, o atleta e o criminoso”, nos fazendo pensar sobre como a sociedade e os adultos veem o adolescente.

O professor chega a dividir um diálogo com o zelador da escola, reclamando que os jovens estão cada vez mais impossíveis, mas o zelador lhe devolve dizendo: “não são eles que estão cada vez mais impossíveis, é você que está ficando velho!”. A sociedade não sabe lidar com o adolescente porque ele é um ser mutante, é alguém em fase de desenvolvimento que não sabe quem é de verdade e, embora pertença a tal grupo e venha a se intitular como tal, não existe maneira de confiarmos no que os olhos veem.

A figura que se destaca no grupo é, sem dúvida, John, o criminoso. Ele é um rebelde, usa cabelo comprido, várias camadas de roupa, botas gastas e bandanas amarradas onde não deveriam estar, além do couro e do xadrez, símbolo do rock e da rebeldia. John fala alto, não aceita hierarquia, tem uma resposta para tudo e é um provocador. Ele se esconde atrás desse papel, o de provocar o professor, de provocar os colegas de detenção, de provocar seus pais e de provocar o mundo. Nosso criminoso ganha seu lugar e sua reputação ao provocar, ao fazer perguntas invasivas e irritantes e em fazer o mundo ao seu redor detestá-lo.

Em vários momentos durante o filme, eu detestei o personagem e desejei que ele ficasse quieto, mas sem John não haveria história. Ele provocou os colegas ao desobedecer as regras de silêncio e ao infernizar Claire e Andrew com perguntas sobre sexualidade, hierarquia escolar e relação com os amigos. Foi ele quem provocou a conversa sobre o núcleo familiar de cada um e foi ele, em todos os momentos do filme, que provocou a rebeldia e a expressão da vulnerabilidade de cada um dos outros membros do Clube dos Cinco.

Claire é uma figura interessante na medida em que representa o conforto com a situação em que se encontra e é a principal usuária da máscara da invulnerabilidade. Ela é a rainha da escola, a menina sem defeitos, desejada por todos os meninos e invejada por todas as meninas, que ganha tudo o que pede e que valoriza seu lugar na hierarquia. Em diversos momentos, notamos Claire como uma convencida e como alguém que vê o mundo como ele é, mas que não faz nada para muda-lo. Na cena em que os cinco conversam sobre serem amigos no dia seguinte, na frente de toda a escola, ela faz o discurso que revela o modo como pensa: a estrutura está montada há tanto tempo que não tem como mudar.

Claire conhece os problemas, mas não se move para resolvê-los. Podemos ver essa característica quando John e os outros a provocam sobre sua virgindade e em como ela sempre foge da conversa. A princesa escuta a pergunta e desconversa, finge que respondeu, mas não diz nada que possa compromete-la porque ela não quer descer do muro. Como Allison diz: “se você já fez, é uma vadia. Se não fez, é uma puritana” e Claire não quer ter que escolher um dos dois lados ou escolher um deles e defender sua opinião. O confortável para ela é deixar o mundo na constante dúvida sobre ela e continuar acomodada em seu lugar.

Andrew, por outro lado, não está confortável onde se encontra, mas é uma figura que nos mostra a força que a adolescência tem em suprir a necessidade do pertencimento. Ele é um atleta clássico, usa a jaqueta do time do qual faz parte e tem toda a atitude máscula que se espera de um atleta estereotípico dos ensinos médios americanos. Ele é um adolescente que não se encaixa naturalmente no lugar onde se encontra e não gosta disso, então força o pertencimento. Prega uma peça humilhante e dolorosa em um colega de escola para se aproximar dos bullys, que são a classe dominante no ensino médio, e para se tornar mais parecido com o pai, que era um bully em seu período escolar, segundo a história que Andrew conta.

Ele precisa tanto se encaixar, se sentir pertencente e ser legitimado pelo pai e pelos amigos como alguém que merece a atenção dada por eles, que quebra seus próprios limites e machuca outra pessoa durante esse processo. Esse é o motivo pelo qual Andrew está na detenção e nós podemos acompanhar a culpa e o arrependimento que o tomam enquanto ele conta sua história, escutada com atenção e apreensão pelos outros. Nós podemos observar também, durante as cenas iniciais de Andrew, e na expressão de seu pai, que o plano de pertencimento do menino o reprovou diante dos olhos paternos e fraternos.

Andrew pode ter sucumbido à pressão de sua própria cabeça, mas Brian sucumbiu pela pressão externa, mais precisamente pela pressão de seus pais de que ele fosse sempre o melhor da turma e fosse sempre o mais inteligente. Brian é o típico nerd com seu aparelho nos dentes e suas roupas tradicionais e conservadoras, mas é o membro do Clube dos Cinco que tem a cabeça mais aberta e que se apresentou mais propenso à mudança. Ele não julgou os colegas de detenção em momento nenhum, sempre foi gentil com eles e os ouviu, talvez um remanescente de sua posição hierárquica na escola, como mostra a cena inicial de John na biblioteca.

John faz Brian levantar da cadeira em que estava sentado apenas para mostrar que pode, fazendo-o se sentar em outro lugar na biblioteca e exercendo um poder simbólico (e de força física) com o qual Brian aprendeu a lidar. Os filmes que se passam em escolas americanas (e as nossas próprias experiências escolares) nos ensinaram que os nerds são a fatia mais baixa da pirâmide social e Brian entende seu lugar nessa pirâmide. Ele não responde à John com medo de apanhar, ele não responde à Andrew com medo de ser colocado para escanteio e ele não responde à Claire por medo de ser rejeitado eternamente por ela.

Brian é movido pelo medo de seus colegas de escola, mas existe um lugar onde ele é o rei: dentro de sua categoria e do seu clube de física. Ele é inteligente, culto e um aluno, literalmente, nota dez. Brian nunca tirou notas menores e é incentivado a sempre ser o mais inteligente por seus pais, então é compreensível que ele tenha perdido a cabeça quando descobriu que tirou seu primeiro 0. Apesar de um 0 não significar nada para a princesa, que tem sua beleza e posses, para o atleta, que tem suas habilidades de luta, e para o criminoso, que tem o respeito através do medo, o cérebro de Brian e sua inteligência é tudo o que ele possui.

Com uma nota menor do que dez no currículo, Brian perde o respeito dos membros de seu grupo social, ele perde sua coroa e isso significa perder a chance de pertencer. O filme inteiro vai e volta na questão do pertencimento e se prende muito ao núcleo familiar de cada personagem, mostrando que há muito mais debaixo do que a aparência de cada um traz. Para John, sua família problemática e disfuncional justifica seu comportamento e sua agressividade. Para Claire, a difícil convivência com os pais justifica a sua falta de vontade de mudar o mundo. Para Andrew, a constante necessidade de ser validado pelo pai justifica suas atitudes extremas. Para Brian, toda a pressão dos pais em vê-lo estudando justifica seu pânico.

Os problemas familiares são o que une esses jovens tão diferentes. Perceber que pessoas tão distintas entre si podem ter problemas parecidos é que os faz conversar e entender que pessoas estão muito além do que os rótulos dizem, embora eu acredite que o filme tenha pecado ao apresentar a questão da identidade adolescente e a dúvida sobre ser quem é. A narrativa inicial do filme nos mostra os cinco personagens de acordo com suas categorias sociais e essa é uma imagem que não desvanece à medida que o filme avança, mas que se perpetua. Uma grande questão sobre a identidade é que ela é fluída e que é perfeitamente normal que o ser humano seja duas coisas completamente diferentes ao mesmo tempo.

“Clube dos Cinco” acaba falhando em apresentar essa mensagem, já que não deixa claro, em momento nenhum, que o atleta pode ser um nerd ou que a princesa pode ser uma criminosa. As identidades dos nossos protagonistas são deixadas intactas durante o filme ao nos mostrar que o único talento excepcional de Claire é passar batom com os peitos e que John não respeita as regras. O ideal seria mostrar que as pessoas vão além de seus rótulos e isso não acontece. O que temos, ao final de toda a narrativa e que serve como o discreto recado da película de que as pessoas podem ter vários rótulos ao mesmo tempo, é uma esperada subversão na hierarquia social escolar quando a princesa beija o criminoso e o atleta termina o filme de mãos dadas com a maluca.

Eu deixei essa personagem de fora da contagem propositalmente porque acho que ela precisa de um tratamento especial, dado que ela é a única personagem do filme que é deixada de lado o tempo inteiro, que é usada como alívio cômico e como gancho para as tramas de outros personagens. Allison pode ser resumida com uma frase dita pela mesma quando perguntada o motivo de estar na detenção: “eu não tinha nada melhor para fazer”. Ela é introduzida como uma maluca e suas cenas até a metade do filme são dignas de pena, já que ela é estranha, constrangedora e se comporta como alguém insano de fato.

O que nos é dado de cenas da moça são momentos em que ela diz que não tem amigos, em que ela confidencia que os pais dela a ignoram e que Andrew a acusa de não querer fugir, mas querer fazer as pessoas pensarem que ela quer fugir, como alguém que demanda atenção. Podemos perceber um momento de identificação entre os personagens nesse momento, já que ela nunca é vista por ninguém, especialmente pelos pais, e espalhar a ideia de que vai fugir de casa é uma maneira de se tornar uma preocupação para as pessoas, logo, ser vista. Allison quer ser vista, mas se esconde o tempo inteiro, seja pelas roupas que usa, pelos longos momentos de silêncio ou quando inventa mentiras sobre si própria.

Durante um momento tenro em que os personagens trocam confidências, ela conta que é uma ninfomaníaca e logo desmarcara a si própria, dizendo ser uma mentirosa compulsiva. O assunto logo é tirado de pauta e nunca chegamos a descobrir se Allison é realmente uma mentirosa, se sua história era verdade ou se ela só estava provocando Claire a contar sobre sua virgindade, um grande exemplo de como a história dessa personagem é deixada de lado em detrimento do desenvolvimento dos outros. O cuidado tomado com os outros personagens e a profundidade de seus motivos não é estendida à Allison.

O momento em que a personagem mais ganha atenção é quando Claire, dentro de sua bolha de princesa, resolve fazer um makeover em Allison. Munida de maquiagem, uma blusa cor de rosa e uma tiara com enfeites, Claire modifica tudo o que conhecemos de Allison e a transforma em uma pessoa diferente. A maluca se torna uma princesa, então, ganhando a atenção de Andrew, que sai de mãos dadas com ela da escola, apaixonado. O problema dessa trama não é Allison ganhar um makeover, mas a inconsistência do roteiro em usar esse recuro em um filme que falou de aceitação e pertencimento o tempo inteiro. 

Claire não precisou desarrumar o cabelo e jogar fora os brincos de diamante para provar que não era apenas uma princesa, John não precisou atar direito as botas de combate para provar que era mais do que um criminoso, Andrew não precisou tirar a jaqueta do time de luta para provar que era mais do que um atleta, Brian não precisou tirar o aparelho e a camisa de dentro das calças para mostrar que era mais do que um nerd... Allison, entretanto, precisou se desvencilhar do casaco preto e tirar o cabelo do rosto para mostrar que agora era digna de ser vista, que era digna do amor de Andrew, da atenção dos outros quatro e deixar claro para o espectador que ela era bonita.

O Clube dos Cinco nos mostra que as pessoas são mais do que sua aparência e comete o erro de mudar justamente a aparência de uma de suas personagens para que ela conseguisse a felicidade no final do filme. Apesar disso, o filme é bom, tem um ritmo interessante e tomadas que conseguem mostrar a intimidade crescendo entre os personagens e o avanço da relação deles. Todo o filme se passa em um dia só e é interessante notar que a maneira como estão sentados e dispostos na biblioteca muda conforme a intimidade entre eles cresce. Começam tímido e sentados longe um do outro, sem qualquer contato visual, para terminarem sentados em roda no chão, se olhando e chorando, um vendo o outro através das máscaras sociais.

O meu saldo final foi bom, muito bom, apesar das falhas do roteiro com Allison e da falta de fluidez na identidade dos personagens, mas o filme traz questões que não se deixam ser ignoradas e que são tão presentes no mundo adolescente, mesmo que de uma maneira não tão profunda. Nós conseguimos ver um laço se formando entre os nossos protagonistas e conseguimos entender que, embora tenhamos a necessidade de entender os adolescentes, a única coisa que teremos será nossa visão sobre eles, assim como nos diz a redação que Brian escreve em nome do clube e que narra a cena inicial e a final do filme.

Mas fica a dúvida: o Clube dos Cinco durou até a segunda feira?

Um comentário:

  1. Oi Mariana! Caí de paraquedas no seu blog e me identifiquei bastante! Parabéns pelo blog! Vou te acompanhar aqui.

    Bjs, Larissa

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